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Criação do Dia Nacional do Hip-Hop é aprovada na Comissão de Educação e Cultura do Senado

Projeto de Lei que segue para o Plenário institui 11 de agosto como a data da comemoração. 

Na ultima terça-feira (3), a Comissão de Educação (CE) do Senado aprovou a criação do Dia Nacional do Hip-Hop e da Semana de Valorização da Cultura Hip-Hop. O Projeto de Lei institui as celebrações em 11 de agosto - e na semana que o contempla - em função do nascimento do movimento, em 1973, nos Estados Unidos. O texto já havia sido aprovado na Câmara dos Deputados, em novembro de 2025.
 Quando eu, mulher periférica nordestina, leio que a Criação do Dia Nacional do Hip-Hop foi aprovada na Comissão de Educação e Cultura do Senado Federal, e que o Projeto de Lei que institui o 11 de agosto como Dia Nacional do Hip-Hop segue para o Plenário, eu sinto orgulho. Mas sinto também memória.

Porque antes do rap chegar com seu boom bap ecoando das caixas, o Nordeste já rimava.
Aqui a palavra sempre foi arma e afeto. Muito antes de alguém chamar de freestyle, a gente já tinha os repentistas duelando inteligência nas feiras, os emboladores costurando crítica social na velocidade da língua, os coquistas transformando cotidiano em poesia cantada. E também o cordel, pendurado em barbante nas feiras, contando histórias do povo em rima, crítica e sabedoria popular. O repente é batalha. A embolada é flow. O coco é resistência ritmada. O cordel é literatura viva da quebrada nordestina. 

Quando falam que o hip-hop nasceu lá no Bronx, eu respeito a origem, porque cada território tem seu chão sagrado. Mas também afirmo: o Nordeste sempre teve sua própria escola de oralidade insurgente. A periferia daqui nunca foi silêncio. Sempre foi verso.

E quando vejo o break ocupando as praças, eu enxergo corpo nordestino ali também. O giro no chão conversa com o xaxado firme do sertão. A explosão dos passos dialoga com a energia do frevo rasgando as ladeiras de Recife e Olinda. Nosso corpo sempre dançou resistência. Nosso suor sempre foi linguagem.

Para mim, essa aprovação no Senado não é só reconhecimento de uma cultura urbana contemporânea. É a legitimação de uma linhagem ancestral que vem da oralidade indígena, da força africana, do tambor, do pandeiro, da rabeca, da palma batida no improviso.

O hip-hop é ferramenta de educação, sim. Mas aqui na periferia nordestina ele também é continuidade. Ele dialoga com a tradição e cria futuro ao mesmo tempo. Ele entra na escola onde muitas vezes o Estado falhou. Ele organiza juventude, constrói autoestima, cria pertencimento. Ele salva menino da rota do abandono e transforma menina em protagonista da própria narrativa.

Eu vejo o 11 de agosto como um marco importante. Porque reconhecer o hip-hop oficialmente é reconhecer que a periferia pensa, produz, educa e transforma. É admitir que cultura é política pública séria. É entender que revolução também pode vir rimada, dançada, grafitada.
Nós nunca esperamos validação para existir. Mas quando ela vem, a gente usa como megafone.

O Nordeste sempre rimou.
A periferia sempre educou.
E o hip-hop, para nós, não é moda importada.
É continuidade de luta, é ponte entre tradição e futuro, é revolução com sotaque.

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